“AI-5 50 anos depois” e os traumas de 1968

Exposição gratuita no Instituto Tomie Ohtake, até 04/11, traz uma importante reflexão histórica sobre a produção artística possível no período mais duro da ditadura militar brasileira, os chamados anos de chumbo do Ato Institucional 5, que suspendeu os direitos democráticos dos cidadãos. Com textos explicativos ao lado de cada obra ou arquivo, a curadoria de Paulo Miyada, ex-aluno graduado e mestre pela FAU-USP, se preocupou em situar historicamente o público. Além de registros da história da arte como quando traz elementos da perseguição do regime militar à Fundação Bienal e o papel de resistência de críticos como Frederico Morais e Mário Pedrosa.

 

“O Presente”, 1967-2018, Cybèle Varela, que foi censurada pelo regime em ofício enviado à Fundação Bienal

Intervenção na FAU-USP, em 1970, por Nelson Leirner

Podemos ver como o governo do período não poupou as mais variadas formas de arte. Estão à mostra os documentos com pareceres de censura contra alguns dos principais cineastas da época, como Glauber Rocha e Sganzerla. Na música, há disposição de materiais de artistas que foram perseguidos, como uma entrevista em vídeo com Gilberto Gil. As peças do Teatro de Arena também são lembradas. Ainda há fotografias e reportagens sobre as manifestações civis pela redemocratização. Entretanto, a exposição se destaca nas artes visuais, pela quantidade de obras importantes expostas. Antonio Manuel com seu próprio corpo nu sendo a obra (o que incomodaria conservadores ainda hoje), Cildo Meireles e a pergunta “Quem matou Herzog?” estampada em notas de cruzeiros, Hélio Oiticica e seus parangolés. Além de Carmela Gross, Claudio Tozzi, Nelson Leirner entre vários outros.

“Inserções em circuitos ideológicos: projeto cédula”, 1975, Cildo Meireles

 

“A Prisão”, 1968, Claudio Tozzi

Exposição de muito impacto e intensidade, que relembra vozes silenciadas num período sombrio de nossa História. É das melhores a acontecer na cidade este ano desde “Levantes” sob curadoria do historiador da arte Didi-Huberman, no Sesc Pinheiros, que ficou por lá até janeiro. Em ambas as exposições as imagens expostas são o registro de pessoas que se propuseram a lutar e a usar suas vozes (mesmo que a linguagem seja artística) diante de situações autoritárias. O subtítulo desta exposição fala que 1968 “ainda não terminou de acabar”, os registros de manifestações naquela exposição de Didi-Huberman, por exemplo dos imigrantes enfrentando situações degradantes para ultrapassarem limites e fronteiras, provam que, de fato, ainda há muito a ser conquistado.

O Tomie Ohtake fica na Av. Brigadeiro Faria Lima, 201, Pinheiros, São Paulo – SP.

Por Rodrigo Rosa, jornalista, mestrando em Estética e História da Arte pela USP.