Alumni Entrevista – Professor Alexandre Rodrigues

Foto: Rafael Battaglia Popp

Quando o professor Alexandre Augusto Martins Rodrigues ingressou no curso de Matemática da Universidade de São Paulo, ela era bem diferente de como a conhecemos hoje. Em 1949, quem pretendia estudar matemática ou qualquer outra ciência, por exemplo, deveria entrar para a antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL), localizada na Rua Maria Antônia, no centro de São Paulo.

O professor Alexandre viu de perto praticamente todas as mudanças que já acontecerem na universidade. O único da sua turma a se formar em 1952 foi também o primeiro bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) na sua área de formação. Dono de uma extensa carreira e com passagem pelas mais prestigiadas instituições de ensino norte-americanas, dedicou sua vida ao estudo da matemática, e foi extremamente importante para a sua difusão no Brasil. Aos 86 anos, ele concedeu uma entrevista ao Escritório Alumni, em que nos conta um pouco sobre a sua história.

O senhor poderia nos contar um pouco sobre a sua trajetória profissional? Um breve resumo desde a época que o senhor entrou na USP.

Desde os 14 anos, eu me lembro de gostar de matemática. Eu venho de uma família de engenheiros e, por tradição, deveria ter ido estudar na Escola Politécnica, mas com essa idade descobri que o que eu queria realmente era aprender matemática, e para isso deveria entrar na antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, e foi o que eu fiz, em 1949.

Curiosamente, naquela época, pouquíssima gente entrava na FFCL para estudar matemática, tanto para licenciatura, quanto para bacharelado. Prova disso é que fui o único aluno da minha turma que se formou, em 1952, e, na turma seguinte, ninguém. Não havia a concepção de mercado, do estudante se dedicar exclusivamente a uma ciência. Era muito difícil.

Ao me formar, percebi que, se eu quisesse continuar e aprofundar meus estudos de matemática deveria ir para o exterior. O Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq, que após 1974 passou a se chamar Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) tinha sido recentemente fundado pelo Almirante Álvaro Alberto, devido ao sucesso da descoberta da partícula subatômica mesón pi pelo físico brasileiro César Lattes.

Isso deu um impulso no desenvolvimento da ciência no Brasil, e eu fui o primeiro bolsista de matemática no exterior do CNPq. Fui para a Universidade de Chicago sob a orientação de André Weil,um grande matemático francês. Lá, acabei me doutorando, em 1956. No ano anterior, voltei ao Brasil para me casar com Maria Lizema Gomes, minha esposa até hoje e que, desde então, sempre viajou comigo. Ela foi uma companheira constante na minha carreira matemática.

E como foi a sua volta para o Brasil?

Fui contratado pelo professor Mário Schenberg, do departamento de Física da Faculdade de Filosofia. Logo em seguida fui contratado pela Escola Politécnica para dar aula de Geometria Analítica, e tive a oportunidade de introduzir o ensino de álgebra linear por lá. Eu fui orientador do doutorado do professor Waldyr Muniz Oliva, que posteriormente foi reitor da Universidade de São Paulo. Além disso, fui eleito membro da Academia Brasileira de Ciências, uma experiência muito gratificante.

Depois de dois anos lecionando na Poli, ganhei uma bolsa da Fundação Guggenheim para estagiar no Institute for Advanced Study, em Princeton, nos Estados Unidos. Passei um ano no instituto e depois atuei como associado de pesquisa na Universidade de Princeton, onde tive contato com os professores Donald Spencer e Massataki Kuranishi, com quem trabalhei no ano seguinte na Universidade de Columbia, em Nova Iorque.

Regressando a São Paulo, após esses três anos, voltei a lecionar na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, no depto de Matemática, que na época ficava na famosa rua Maria Antônia. Além das instituições americanas já citadas, eu também fui associado de pesquisa na Universiade de Harvard e na Universidade de Yale.

Como foi a criação do Instituto de Matemática e Estatística (IME)?

O IME foi o resultado de uma reforma ampla na Universidade de São Paulo, em 1970, influenciada pela reforma da Universidade de Brasília. A Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras foi desmembrada, e surgiram os institutos de ciência.

Isso foi uma decisão de alto nível do Conselho Universitário, mas eu acompanhei toda essa transição de longe, pois na época eu havia sido convidado pelo professor Jean-Louis Koszul para ser professor na Universidade de Grenoble, na França, e continuar os meus estudos de grupos de Lie infinitos, por um período de três anos. Durante esse tempo, orientei três doutorados de terceiro ciclo. Quando voltei para o Brasil, o antigo departamento de Matemática da Faculdade de Filosofia já não existia mais.

Qual foi o seu trabalho desenvolvido no IME?

No IME, além das aulas da graduação, passei a lecionar na parte de pós-graduação, e tive vários alunos de mestrado e doutorado. Alguns deles continuaram sua carreira matemática, como o professor Antônio Kumpera, titular da Universidade de Campinas e que publicou, em colaboração com D. Spencer da Universidade de Princeton, um livro que é referência sobre a teoria das equações de Lie, e o professor José Miguel Veloso, que hoje é titular da Universidade Federal do Pará. Vale mencionar que orientei também um doutorado da Universidade Central da Venezuela.

Quanto a cargos administrativos, em 1978 fui chefe do Departamento de Matemática e, em 1986,  vice-diretor da Faculdade de Educação.

O professor Alexandre durante um workshop realizado no IME, em 2016. Foto: Arquivo Pessoal.

O professor Alexandre durante um workshop realizado no IME, em 2016. Foto: Arquivo Pessoal.

Qual o seu vínculo atual com a USP?

Eu me aposentei em 2000, mas tendo sido eleito representante dos antigos alunos no Conselho Universitário, eu passei novamente a ter bastante contato com a Universidade de São Paulo. Desse contato, despertei um antigo interesse pela licenciatura. Um colega me informou que no ano anterior se formaram 170 licenciados pelo IME em matemática. Nenhum deles, contudo, foi ser professor de matemática. Todos eles foram trabalhar em bancos, seguradoras, em outras atividades. Claro que existe aí um problema muito grave do baixo salário do professor secundário, mas há também um grave problema de inadequação da licenciatura, de definir suas finalidades, e nessa segunda parte a Universidade tem uma possibilidade de atuação. E no momento é com esse problema que estou me ocupando.

De que maneira?

Com esse novo contato com a USP, passei a me interessar outra vez pelos problemas da Licenciatura, e transmiti à direção do IME e da USP um artigo que tinha sido escrito em 1991, em colaboração com três outros professores da USP, propondo uma licenciatura em Ciências, que pretende, antes de mais nada, ser um curso experimental, que se adaptará e modificará às circunstâncias em que forem apresentadas pelos seus alunos, discutindo com eles e com seus professores.

A ideia básica é que os estudantes façam, nos primeiros dois anos básicos, aulas em comum de Matemática, Física, Química e Biologia, adquirindo uma formação científica mais ampla, e, ao mesmo tempo, iniciará sua atividade didática, dentro da ideia de que é fazendo que se aprende.

Na segunda etapa, haverá uma ênfase muito grande em Sociologia, Antropologia, História da Ciência e da Educação no Brasil, procurando dar a eles uma formação que lhes permita entender a atividade de professor num grupo social determinado, saindo da concepção de que basta conhecer matemática para ser um bom professor de matemática.

Seu avô, Lúcio Martins Rodrigues, foi diretor da Escola Politécnica e um dos primeiros reitores da USP. Como era sua relação com ele?

Muito boa. Desde muito cedo tive contato com o ambiente científico através da convivência com o meu avô. Naquela época, o Brasil dependia muito da França, culturalmente falando. Então por volta dos 14, 15 anos eu ouvia falar de grandes matemáticos franceses de fins do século XIX e início do século XX. E eu me intrigava com o fato de que não existiam grandes matemáticos brasileiros.

Depois eu vim a aprender que o aparecimento de um expoente da ciência é um fato social e não individual. Quer dizer, num lugar onde não há desenvolvimento científico, não vai aparecer nenhum expoente da ciência. Casos isolados são raríssimos, como o caso do matemático hindu Ramanujan, que escrevia fórmulas sem demonstração, mas que eram corretas e dizia que a sua intuição vinha de Deus. Há um filme sobre a vida desse homem, intitulado “O Homem que Viu o Infinito”, vale a pena assistir.

Qual foi a importância da USP na sua vida?

Muito grande. Apesar de ter passado tanto tempo fora, eu nunca tive o desejo ou a vontade de me tornar um professor no exterior. Eu sentia que as minhas raízes eram aqui. Talvez devido ao fato de que meu avô foi diretor da Poli, reitor e influenciou a minha meninice com as conversas sobre matemática, mecânica celeste, astronomia, matéria da qual ele também era professor. Mas não é só isso não. De ambos os lados, do lado paterno e do lado materno, eu tenho muitas raízes brasileiras e nunca cogitei morar no exterior. O exterior foi para aprender matemática.

Texto e Foto: Rafael Battaglia Popp