Alumni em destaque: Rafael Melhem

Hoje produtor musical, o engenheiro compartilha sua experiência em atuar fora da sua área de formação

 

Rafael Melhem se formou em 2014 em Engenharia de Materiais na Escola de Engenharia de Lorena, da USP. Porém, ele representa um segmento de ex-alunos que, por diversas razões, não atuam na sua área de formação. Produtor musical, hoje ele já tem estabilidade em sua profissão, em que também trabalha com a produção de identidade musical (área do Marketing) para empresas. Na entrevista abaixo, ele nos conta mais sobre a necessidade que teve de se reinventar para entrar no meio do empreendedorismo. Para ouvir seu trabalho enquanto lê a reportagem, clique aqui.

Foto: acervo pessoal do ex-aluno

Você chegou a trabalhar com engenharia, fez estágio ou não viu oportunidades no mercado na sua área?

R: Fiz estágio por doze meses numa fábrica de para-choques em Taubaté, interior de São Paulo. Isso foi em 2013, um período com várias paralisações e greves que antecederam as crises que estavam por vir no Brasil (principalmente no meio automotivo). Colei grau em março de 2014 e, nessa época, as vagas para engenheiro recém-formado praticamente inexistiam, principalmente na área de engenharia de materiais. Mas o que aparecia na minha frente eu tentava, sempre sem sucesso, tentava muitas vezes vagas que não tinham a ver com engenharia.

Como surgiu o interesse em ir para a produção musical, área um tanto distante da engenharia de materiais? Você aplica na atual profissão algum conceito de engenharia, ou que você atribua à sua formação na USP?

R: Quando meu pai faleceu, depois de dois anos lutando contra um câncer, a música era minha válvula de escape, ouvia muito jazz nessa época e eu ainda estava no meu segundo ano da faculdade. Em 2008 começou o interesse em entender mais sobre música e sempre tive habilidade de aprender temas de meu interesse sozinho, a engenharia reforçou muito este lado. Então, não só o curso me ajuda até hoje, no aspecto investigativo e de resolução de problemas, como a vida universitária e o dia a dia em república foram fundamentais para conseguir encarar novos desafios e tornar menos frustrante a migração para um universo completamente novo, tal qual foi meu ingresso na USP, numa cidade totalmente diferente. Vejo muitos aspectos positivos de ter estudado engenharia na EEL e atribuo muitos acontecimentos atuais a esse período.

Como você lidou com essa frustração com o mercado de trabalho em engenharia e transformou em energia para empreender? Há alguma dica para quem possa estar numa situação parecida à sua na época de recém-formado?

R: Não foi fácil. Todos sabem que cursar engenharia não é uma das coisas mais tranquilas de se fazer e, pra piorar, hoje eu me vejo mais como uma pessoa da área de humanas, o que torna a experiência ainda um pouco mais traumática. Logo que colei grau, eu ainda acabei entrando no mestrado em uma universidade federal, mas não concluí. Teve um ponto em que eu entendi que se você ficar olhando só para o aspecto negativo de toda a questão, a vida não anda. Minhas músicas estavam se tornando minimamente conhecidas e, foi bem nesse momento que uma amiga – irmã de um ex-colega de república – estava trabalhando em um grupo de marcas de moda e me convidou para assinar a trilha sonora dessas marcas. Então, em nenhum momento foi uma escolha que eu fiz, mas são essas situações que a vida vai te levando para um caminho em que não há como prever ou ter algum controle. Foi uma sorte grande. Apesar de gostar muito da área de ciência dos materiais, sendo até difícil afirmar que jamais retomaria essa carreira, hoje a música é minha vida e dedico praticamente todo o meu tempo profissional e meus estudos à ela.

Obviamente ainda encontro muitas dificuldades em algumas questões, mas se coubesse a mim dar alguma dica, seria que a pessoa faça alguns exercícios de autoconhecimento e reconheça suas forças, habilidades e fraquezas, isso ajuda muito a migrar para uma nova área. Entender, por exemplo, o que você faz de melhor ou o que acredita que faria de melhor e tem uma vontade ou desejo inexplicável de realizar. No mundo de alta exposição que vivemos, conhecer a própria personalidade também é essencial. Me considero uma pessoa introvertida, amo ter o meu espaço e isso se tornaria um grande problema se precisasse trabalhar em grandes equipes. Mas demorei pra entender isso, o que me fez perder muito tempo e dinheiro tentando entrar em empresas e vagas que não combinavam com essa personalidade. Atualmente estudo música e piano para ajudar na minha profissão, mas boa parte das minhas habilidades extracurriculares e sociais foram lapidadas nos meus anos de engenharia, é isso que eu exalto e sou grato, porque elimina qualquer eventual frustração.

Poderia contar mais sobre seu empreendimento? Como é produzir identidade musical para marcas? Você produz também para fins artísticos? Se sim, qual gênero musical?

R: Tive que abrir a empresa e ter um CNPJ por questões burocráticas, não era algo que estava nos meus planos, aí entendi que no fim toda pessoa que trabalha com música acaba sendo uma empreendedora de si mesma. Ainda tenho que viajar para fazer reuniões, cuidar de vendas, redes sociais e cuidar das criações, eventualmente dar alguma palestra sobre o tema, é nessa parte do empreendedorismo que eu me encontro, por assim dizer.

Para quem não conhece, a identidade musical é uma ferramenta de marketing para que uma marca possa se comunicar com o seu público alvo. Este público é determinado pela faixa etária, poder aquisitivo, gênero, etc. Com base nessas características, a identidade musical é estudada e criada visando engajamento, vendas, tempo de permanência e bem estar deste público.

Também faço músicas para fins artísticos, na verdade, foi assim que tudo começou. Comecei como pesquisador musical e aprendi a discotecar. Fiz aulas de piano e comecei a produzir minhas primeiras músicas. Tive a sorte de grandes DJs do Brasil e exterior se interessarem pelas minhas músicas e tocarem elas nas suas apresentações, muitas vezes gravando em vídeo para me mostrar. Tenho músicas lançadas desde 2011 e, graças a essa exposição, as coisas foram acontecendo. Meus gêneros preferidos são jazz e soul music. Logo, as músicas que crio e produzo sempre têm essas influências, mescladas com música eletrônica.

Você aprendeu teoria musical de maneira autodidata ou fez cursos? Já se interessava na época de estudante de engenharia ou o interesse na área surgiu depois? Enquanto estudante, você imaginava que poderia ter uma carreira tão diferente de engenheiro? A área que escolheu atualmente está sólida?

R: Percebi que tinha essa habilidade autodidata, de maneira bem clara, no meu período de estágio. Desenvolvi meu TCC (sob orientação da excelente Rosa Conte, EEL-USP) dentro da fábrica, visando benefícios práticos para eles e porque obviamente eu pleiteava ser efetivado. Mas essa foi uma daquelas experiências chave, uma das mais importantes que eu tive pessoal e profissionalmente. Pois a necessidade de aprender temas dos mais diversos foi muito grande, usava conceitos e disciplinas que não eram comuns na minha graduação. Então, o aspecto investigativo foi muito forte, acabei aprendendo estatística multivariada e programação também. Saber que eu tinha a capacidade de entender temas complexos, por conta própria, foi fundamental quando um cliente precisou de um aplicativo para que as músicas pudessem ser transmitidas por suas lojas espalhadas no Brasil. Eu tinha a habilidade de poder discutir e pesquisar aspectos técnicos, que um produtor musical ou músico sem formação na área de exatas provavelmente não conseguiria. De maneira autodidata, estudo temas mais aplicados à área de engenharia de áudio, produção e composição musical, como jazz e improvisação, mas tenho aulas com uma professora de piano clássico que me ajuda com a questão de técnica e articulação no instrumento, estudo piano diariamente.

Não imaginei, porém desejei que pudesse atuar com música, mas achava improvável que se tornaria realidade. Acho que a questão de “área sólida” é bem subjetiva e temporária, engenharia era uma dessas profissões que diziam que era certeza de emprego a vida toda e hoje vemos que a realidade é outra. Acho que no fim a dificuldade é a mesma em todas as profissões, mas é bem mais prazeroso trabalhar com algo que lhe brilhe os olhos.

Texto: Rodrigo Rosa