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Apaixonado por biologia “desde que se entende por gente”, o ex-aluno da USP Atila Iamarino ingressou no Instituto de Biociências (IB) em 2002 para estudar Ciências Biológicas e hoje é pós-doutor em Genética Molecular e de Microorganismos pelo Instituto de Ciências Biomédicas (ICB). Em 2015, abandonou a pesquisa para se dedicar exclusivamente à divulgação científica, através do canal do Youtube “Nerdologia”, que já possui mais de 1,5 milhão de inscritos. Atila atua também junto à Pró-Reitoria de Pesquisa da USP como designer instrucional, no desenvolvimento de cursos online.

Na época, o bacharelado oferecido pelo IB era integral e, para sua felicidade, não era necessário escolher uma especialização:

 

“Tive a sorte de pegar a última turma que era ‘aberta’. Hoje em dia, quando você faz o curso, tem fechar o currículo em uma determinada área. Nunca quis me especializar, sempre gostei da biologia como um todo, tive a sorte de passar por tudo.”

 

O bacharelado não possuía projetos de divulgação científica, mas a vontade de falar com quem estava de fora da Universidade fez com que ele participasse dos projetos de extensão. Os alunos do IB recebiam estudantes de escolas públicas e particulares e os levavam para conhecer o Instituto de Biociências na tentativa de despertar o interesse pela área. Mesmo sem ter concluído a Licenciatura, ele se envolveu muito com ensino. No final do curso, começou a trabalhar em um cursinho popular e se apaixonou:

 

“O legal desse cursinho era que a turma realmente queria aprender! Foi um privilégio muito grande dar aula lá porque, apesar da maioria ter um ensino bem precário, eles estavam muito interessados. Era um desafio tentar explicar aquele conceito complexo de modo mais acessível, de um jeito mais claro, era necessário trazer os conteúdos para o mundo real. O retorno era muito bom e criou uma semente dentro de mim.”

 

A partir dessa experiência, a ideia de “divulgação científica” surgiu nele de modo mais concreto. Após se formar em Ciências Biológicas, em 2006, parou de dar aulas no cursinho popular e dedicou-se à pós-graduação:

 

“Fui fazer o mestrado em microbiologia e me especializar em evolução viral, o que foi um alívio. Estava estudando a interação entre vários sistemas e fatores, não uma coisa só, continuei sem me especializar muito. Tive a oportunidade de trabalhar com diversos vírus, inclusive o Zika – que em 2007 e 2008 estava muito restrito, circulava apenas em macacos e ninguém sabia como iria evoluir.”

 

Mesmo trabalhando em uma área tão abrangente, sentiu a necessidade de estudar mais assuntos. Um amigo sugeriu então que criasse um blog, assim poderia continuar conversando com outras pessoas sobre ciência, mas no seu tempo e no seu horário. Surgiu o “Rainha Vermelha”, nome em homenagem a uma teoria evolutiva:

 

“Foi uma experiência fantástica! O blog tinha inúmeras visualizações, muitas pessoas comentando. Foi a primeira vez que vi ser possível fazer divulgação científica, tinha relevância, não era só uma coisa que as pessoas achavam legal. Quando falava sobre vírus, por exemplo, isso dizia respeito a saúde delas, uma preocupação que elas tinham. E melhor, era uma forma de transformar a especialização e o ensino que estava recebendo de graça em algo de importância pública. A divulgação científica me tocou. Por causa do Rainha Vermelha conheci muita gente que também escrevia sobre ciência na internet, resolvemos montar uma rede chamada Science Blogs Brasil, que reúne todas essas pessoas.”

 

Já no doutorado, foi convidado a fazer um episódio do “Nerdcast”, o podcast – mídia de transmissão de informações que funciona como um programa de rádio – mais ouvido do país. Graças à boa recepção, tornou-se um participante recorrente quando o assunto era ciência. Nessa época, estava prestes a estudar um ano fora do Brasil, na Yale University, em Connecticut (EUA), quando Deive Pazos e Alexandre Ottoni, os apresentadores do Nerdcast, o convidaram para apresentar um canal semanal no Youtube chamado Nerdologia, no qual relacionaria ciência com cultura pop:

 

“Fui chamado para escrever o roteiro e mandar os áudios enquanto a Amazing Pixel, empresa do Alexandre e do Deive e dona do canal, cuidaria da arte e gestão. O Nerdologia começou a ser feito nessa inconsequência da minha parte. Frequentava o laboratório da faculdade, cumpria a carga horária de Yale e utilizava o tempo livre para fazer os vídeos. Isso cresceu muito rápido, graças à competência da Amazing Pixel. Com o tempo, conquistei uma maior liberdade de conteúdo, pude explorar outras coisas que achava importante mas não encaixavam no tema da cultura pop.”

 

Quando retornou ao Brasil, no final do seu pós-doutorado, o “Nerdologia” estava com mais de 1,5 milhão de assinantes e Atila recebeu outras propostas de emprego, que impossibilitariam seu trabalho no Youtube.  Assim, teve que fazer uma escolha:

 

“Cheguei a pensar que minha dúvida existia porque ainda não tinha consolidado uma carreira como cientista. Mas publicamos muitos artigos no pós-doutorado, em revistas de grande impacto. Não sabia para que área seguir, estava em uma encruzilhada. Comecei a perceber que a divulgação teria um impacto muito maior do que seria possível como pesquisador para mim. Para falar sobre ciência não era mais preciso depender de um jornal ou de uma revista, pode-se falar em um site ou em um canal no Youtube.”

 

O que fazer? Publicar um artigo que, se for muito bem citado, será reproduzido por 30 outros pesquisadores, ou fazer um vídeo que um milhão de pessoas vão assistir e se informar a respeito de um assunto que eu sei da importância? Então terminei o pós-doutorado e passei a me dedicar ao Nerdologia e à comunicação científica.”

 

Atila enxerga o trabalho que realiza como se fosse uma aula para um milhão de pessoas:

 

“Sei que não supro o papel do professor, ensino temas muito interessantes e não estou formando um aluno, mas motivação é a mesma, conseguir transmitir bem os conceitos, de forma que as pessoas entendam e apliquem à vida. Dei muita sorte, pois o público do canal é super informado e educado, segue aprendendo mesmo depois do ensino médio, gosta e se interessa por saber mais sobre as coisas. Pegamos pesado no conteúdo, não acho o Nerdologia acessível, com certeza seria mais popular se o tom fosse mais leve.”

 

Nos últimos três anos em que apresenta o canal, alguns de seus vídeos “viralizaram”. Sua experiência como pesquisador foi fundamental para que isso acontecesse:

 

“Quando estourou o Zika, estive em uma posição muito privilegiada, trabalhava com ele desde 2013/2014. Fiz um vídeo explicando o que ele era, porquê se espalha, o que causa e se tem ou não relação com microcefalia. Teve um alcance gigantesco.

 

As pessoas piratearam no whatsapp, órgãos do governo postaram, foi quando vi realmente o que era um conteúdo propagar tão rapidamente. Em 2015, falei no Nerdologia sobre o Ebola, que se espalhou na África. Através das pesquisas que participei, foi possível observar que a transmissão acontecia em grupo, as 5 ou 10 pessoas que tratavam ou preparavam os defuntos eram as que se contaminavam. Então disse no canal que ele não viria para o Brasil, porque não temos a condição de pobreza absoluta que eles tem lá na África. Mas, se viesse, não ia se espalhar, porque não realizamos aqui os rituais de funerais que eles realizam lá. Esse vídeo teve mais de meio milhão de visualizações, sendo recomendado pelo Google, Youtube e reproduzido por órgãos de saúde.”

 

Estes casos só reforçaram o pensamento que Atila tinha sobre divulgação científica desde 2009:

 

“Se um pesquisador, um gerador de conhecimento, se dirige ao público e fala de forma acessível, esse conteúdo pode alcançar muita gente. Quem procura vídeos sobre ciência ou saúde no Youtube acha muita conspiração e pouquíssimos órgãos sérios falando sobre aquilo. Ainda não reconhecemos, como universidade ou como governo, a importância das redes sociais e de transmitir informações nelas.”

 

O trabalho do Atila com divulgação científica alcançou a Pró-Reitoria de Pesquisa da USP, que estava pensando em como comunicar o conteúdo produzido pela universidade “para fora”:

 

“O Pró-Reitor teve acesso ao Nerdologia e descobriu que eu era um ex-aluno da USP. Entrou em contato comigo para saber como poderíamos aumentar o contato dos campi com a comunidade externa. Desde então, trabalho com eles no desenho e desenvolvimento de cursos online pelo Coursera. A Universidade estava perdendo uma oportunidade muito boa de atender mais gente, afinal, o que limita o número de alunos é a quantidade de pessoas que cabe em uma sala de aula. Com a internet não existe mais essa restrição. É possível oferecer um curso para 50, 100 mil estudantes, sem grandes prejuízos de experiência.”

 

O relacionamento que Atila possui com os seguidores do canal é ótimo, devido à preocupação do Nerdologia em apresentar os conceitos sem emitir opiniões:

 

“Mesmo em temas polêmicos, tento transmitir o conteúdo de forma que não ofenda as pessoas. Quando se trata de ciência e descobertas, alguns outros canais recebem vários xingamentos nos comentários, isso não acontece aqui. A interação é sempre ótima. O que também se dá porque estou falando com um público que é extremamente esclarecido, não é nem de longe a realidade do Brasil. Estou dentro de uma situação super privilegiada e rara que não é o que acontece no resto do Youtube e do país em si.

 

Transmitir conceitos de forma legal, acessível e de maneira que a pessoa não feche o vídeo é o maior desafio do Nerdologia. É muito difícil tratar as coisas de maneira que mesmo quem tem uma opinião firme e diferente do que os fatos falam, vai ouvir. Mesmo quem se sente contrariado vai prestar atenção em todo o argumento. Como faço para a pessoa não fechar o vídeo em 1 minuto? É difícil até para o público reconhecer que o que estou falando ali não é a minha opinião.”

 

Quando pensa no futuro, Atila possui diversos sonhos e desafios:

 

“Quero abordar a ciência de forma direta no cotidiano das pessoas, mostrar que tem momentos na nossa vida em que não sabemos que ela está presente, que se a aplicássemos, poderia haver uma diferença relevante, mas penso em fazer isso em outro canal, mais acessível, que atingisse mais gente. Também quero levar a tecnologia para dentro da sala de aula, que é o último lugar em que as mídias sociais entraram. Há um conflito de gerações muito grande, a forma como os professores consumiram informação até hoje é diferente de como os alunos vão consumir daqui pra frente.”

Texto: Mariangela Castro