Alumni em destaque: Bela Moschkovich e sua banda Falso Coral

Com sonoridade entre a nova mpb e o indie rock, banda tem dois integrantes que são ex-alunos USP. Album de estreia tem participação da cantora Tiê

 

Os ex-alunos USP integrantes da banda, Bela e Bemti, e a cantora Tiê. Foto: Fernanda Tiné/ Divulgação

 

Falso Coral é uma banda formada por Bela M. (vocais), Bemti (vocais e instrumentos de cordas) – ex-alunos da USP –, Henrique Vital (baixo), Guilherme Giacomini (teclado e sintetizadores) e Pedro Lauletta (bateria). Formada em 2015, a banda lançou um EP no ano seguinte. Agora em 2019 eles visam alcançar um novo patamar de produção e sucesso, ao lançarem o album “Delta”, com uma faixa single em parceria com a cantora Tiê.

Bela e Bemti se conheceram na USP, ela estudou Letras na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP) e ele cursou Audiovisual na Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP). A cantora chamou atenção de Bemti, que viu alguns covers dela no YouTube. Ele pediu para um amigo em comum os apresentarem. O interesse em trabalhar juntos logo surgiu quando perceberam que tinham muitas influências musicais em comum. Seja do rock independente/ alternativo internacional, seja da música brasileira, mpb, nova mpb e música caipira de raiz. Bemti já tinha algumas bases de músicas gravadas e a chamou para fazer os vocais. Quando surgiu a ideia de acrescentar instrumentos eletrônicos e também quando começaram a tocar ao vivo, os outros membros foram sendo convidados.

O vínculo de Bela com a USP vem de outras gerações. Seus pais se conheceram quando sua mãe, que também é ex-aluna, participava do CoralUSP e os dois cantavam juntos. É sobre sua relação com a Universidade e sobre o surgimento da banda, que fez um crowdfunding (financiamento coletivo) para custear o album de estreia, que ela nos concedeu a entrevista a seguir.

 

Como você define esse momento atual de crescimento da banda, com album de estreia, e buscando parceria/ produção de músicos consolidados na cena da chamada nova mpb como Tiê e André Whoong? Como se deu essa parceria para a música “Faísca”, que combinou tão bem, vocês já conheciam a Tiê?

Bela: O momento atual acredito que veio numa progressão muito orgânica. A banda foi crescendo aos poucos, começamos a tocar ao vivo e adquirimos novas dinâmicas de composição, fazemos isso de maneira coletiva, todos têm um pouco de crédito na composição. Amadurecemos bastante as músicas tocando ao vivo e quando decidimos gravar o disco, elas já tinham uma forma. A nossa parceria com o André na produção acabou dando uma forma nova que acho que deu uma boa afinada no conteúdo que já tínhamos e transformou bastante e isso potencializa a gente a divulgar melhor o trabalho. Estamos num momento que já conhecemos certo reconhecimento na cena em São Paulo, antes de lançar o álbum já tocávamos na noite em casas, eventos, saraus, festivais organizados até por órgãos públicos, como projetos do Memorial da América Latina. Quando chegou o momento de que precisávamos de alguém pra produzir, conhecemos ele por meio da cena, o Bemti sempre teve relação com a cena da mpb, participava de um podcast de cultura super legal chamado “Aos Cubos”. Eu na pós-graduação em canção popular na Faculdade Santa Marcelina também fiz alguns contatos. Conhecemos então o André e a Tiê no espaço cultural Rosa Flamingo, num sarau aberto que qualquer banda poderia se apresentar. Houve a participação, numa roda de conversa, onde a cantora Camila Garófalo foi lá falar sobre empreendedorismo. Hoje em dia, para ser artista independente, nós precisamos cuidar muito da parte de negócios, divulgação. Nos apresentamos, onde convidamos o André para a produção. Ele e a Tiê são super abertos para novos artistas da cena, porque eles ajudam muito mesmo, com a promoção de eventos etc. Nesse ponto eles foram importantíssimos. Pois tínhamos recursos limitados, ainda não tínhamos feito uma campanha de financiamento que acabou cobrindo os custos do lançamento do album mesmo. Ele foi responsável por todo o processo de pré-produção e produção. Quando estávamos nesse processo, o André que estava trabalhando na produção da música “Faísca”, mostrou para a Tiê, que gostou. Assim a convidamos para gravá-la, para ajudar na projeção do nosso trabalho. Ela é mais pop e “chiclete”, com uma vibe bem eletrônica. No lançamento do clipe ela também nos ajudou publicando em suas redes sociais.

 

O que vocês almejam para a banda? Como é a produção de um album de maneira independente?

Bela: Almejamos nesse momento espalhar o disco, recém-lançado, para além da cena de São Paulo. O processo de fazê-lo foi muito intenso, nos dedicamos muito a essas 10 músicas. Está no momento de tocá-las, enquanto as novas músicas surgem ao mesmo tempo.

A produção independente é muito trabalhosa, mas é muito gratificante. Avaliamos a quantidade de dinheiro que precisaríamos e fizemos uma campanha de crowdfunding. Deu tudo certo, mas o processo foi suado. O próprio processo de fazer um album é muito cansativo, pois é um trabalho criativo que demanda bastante dedicação. Cantar cansa muito, não é um dom, é fruto de aprendizado, é um instrumento do nosso corpo. Ensina muito ao artista.

 

Poderia falar um pouco mais sobre o crowdfunding para o album Delta? Cobriu todos os custos? Quais foram as vantagens aos contribuintes?

Bela: Cobriu todos os custos, o final foi bem apertado, mas conseguimos uma última ajuda para fechar. A vantagem foram produtos como vídeos cantando covers, camisetas, ingresso para festa de lançamento que fizemos. Teve gente que também apenas contribuiu sem requisitar vantagens além de poder consumir o próprio disco quando lançado. Afinal poderíamos assim ter um disco que fosse nossa cara.

 

Capa do Delta, de 2019

 

Nesse momento de streaming, é mais “fácil” viver sem gravadora do mainstream?

Bela: Não sei se há uma maneira mais fácil do que outra, ambas têm desafios e vantagens. Atualmente, sermos nosso próprio representante na cena independente é muito positivo, pois estamos envolvidos no processo de fazer tudo. Mesmo que contratemos alguém para a produção e assessoria, estamos totalmente presentes em cada aspecto de divulgação. Esse é o ponto positivo, mas ter uma gravadora facilitaria provavelmente na parte financeira, desde que haja a possibilidade de se ter liberdade criativa. Há algumas limitações de contrato, pois a música passa a ser da gravadora etc. Nós não escolhemos ser independentes, creio que tem a ver com nosso gênero musical, começamos assim e estamos levando.

 

Quais são os desafios de se inserir como uma banda independente?

Bela: O grande desafio nosso do momento é sairmos da bolha de onde já somos conhecidos, conquistar espaços do mainstream que são regidos por interesses comerciais. Eu não acho que arte deveria ser um negócio, mas infelizmente é, e nós temos que conseguir lidar com isso e conseguir essa projeção. Crescer organicamente enquanto banda independente é o maior desafio.

 

Ainda trabalham/ pretendem trabalhar em paralelo com algum campo das Letras e Audiovisual (formações na USP)?

Bela: Eu ainda trabalho paralelamente com revisão de textos e livros didáticos e tradução, pois é o que me ajuda a pagar minhas contas. Mas eu foco em dar aula de canto, que não deixa de ser um trabalho de criação. Nos tempos atuais a gente tem que saber diversificar mesmo, saber usar as ferramentas que aprendi na Universidade, foi uma escolha profissional que me ajuda financeiramente. Cada vez mais dos millenials e as gerações mais novas, têm que se adaptar. O Bemti também formado na USP até pouco tempo ainda trabalhava com audiovisual.

 

Enquanto estudantes da USP vocês já planejavam e estudavam para serem músicos ou foi algo que surgiu após as suas graduações?

Bela: Eu já planejava, sempre quis ser cantora, sempre estudei música, desde pequena. Meu pai tocava muito na minha infância, acordava cedo e tocava seu violão. Meus irmãos também estudaram música. Meu pai me inscreveu para fazer a prova da Universidade Livre de Música (atualmente chamada Emesp), eu fui e entrei no curso, o que contribuiu muito para manter a música na minha vida. Nessa idade de 11 aos 15 anos, ia toda semana para aula de música, tinha aula de teoria e prática de coral, então isso sempre parte da minha vida. Prestei Música no vestibular da Unicamp mas não passei pois não reparei que me inscrevi na prova errada (de canto erudito, e não popular). Lidei com a frustração, fui para o cursinho e resolvi prestar Letras, minha mãe trabalha com livros, sempre gostei de Literatura tanto quanto Música. Como sempre quis ser cantora e tinha essa expectativa, sou muito sensível, me senti muito cobrada no ponto de passar no vestibular, então resolvi investir na formação em Letras e música em paralelo.

Dou aula atualmente no Espaço Musical Ricardo Breim, de musicalização para crianças. Fiz o curso, logo emendei a pós em Canção Popular, fundado pelo Sérgio Molina, numa faculdade particular em São Paulo. Meu trabalho de conclusão da pós foi uma análise semiótica dos clipes do David Bowie, ou seja, uma base de conhecimento em semiótica que adquiri no curso de Letras na USP.

 

Na escolha dos temas, como vocês definiriam a mensagem que vocês querem passar nas letras (do Delta)? Como se dá a escolha entre as composições em inglês ou português?

Bela: Em geral o que queremos passar é esse retrato de nós enquanto banda. Fazemos coisas diferentes, mas cada um de nós contribuiu com esse processo. Todos contribuem fazendo arranjo. Nossa qualidade meio camaleônica de misturar vários gêneros, mas darmos nossa própria identidade para isso. Mensagem das letras depende de cada música, escrevemos sobre coisas reais que aconteceram com a gente, sentimentos e situações variadas. Para mim as músicas vêm de maneira catártica, passo por uma experiência intensa, isso transborda e vira uma canção. A parte de ser inglês ou português vem nesse momento de inspiração, a maneira que ela vem na nossa cabeça, o que não impede por vezes de que a gente a traduza. Querendo ou não nosso repertório como ouvintes é essa mescla também de músicas em português ou inglês. Além do alternativo, eu sou fanática pelos Beatles e rock clássico, então isso compõe nossa identidade sonora. Não foi uma escolha comercial de tocar no exterior, é mais afetivo.

 

Quem vocês consideram grandes inspirações na música? Nacionais e internacionais, atuais ou antigas… Pela mistura de indie rock com elementos mais rurais, como a viola, vocês se inspiram em quem fez algo nessa linha há décadas como Clube da Esquina?

Bela: Sou de São Paulo, meu pai nasceu na zona rural (à época, hoje já urbanizada) e a minha mãe é do interior do Vale do Ribeira, então mesmo por ser de São Paulo sempre tive contato com a música caipira em casa, esse pé no rural. O Bemti é mineiro de uma cidade bem pequena chamada Serra da Saudade (nome de uma das músicas do “Delta”). Sim, nos inspiramos no Clube da Esquina, certamente, desde as letras, até a questão da viola e da inserção desses instrumentos. Eles acabam sendo uma referência geral para todos que fazem música popular hoje no Brasil, ao menos deveriam conhecê-los. É uma qualidade de composição e presença no momento histórico em que estavam vivendo que é maravilhoso, assim como toda a Tropicália, Gil, Caetano. Foi uma grande inspiração pra gente, ouço muito Tropicália, Mutantes e Rita Lee, sou muito fã dela. Elis é uma referência de interprete impressionante, além de Gal e Secos e Molhados.

Internacional, gosto muito da Kate Bush, cantora incrível. Sou apaixonada pelos Beatles e David Bowie. Gosto muito de Fleetwood Mac, o disco Rumors foi uma das referências sonoras para o Delta, inclusive em questão de timbres. A Steve Nicks individualmente. Florence and the Machine, gosto muito da Florence, uma das primeiras coisas que percebi em comum com o Bemti, tocávamos bastante covers dela desde que nos conhecemos. Referências atuais, além da Florence, Radiohead (mistura com o eletrônico), nacionais cito todo o pessoal da Nova MPB, como Jaloo, Mahmundi, Letrux, Tchella, Luiza Lian, últimos dois discos dela são fascinantes.

 

Clique aqui para ver o clipe do single “Faísca” no YouTube, em parceria com a Tiê

 

Clique aqui para ouvir o album no YouTube, na íntegra

 

Texto: Rodrigo Rosa