Entrevista com ex-alunos que participaram do programa Poli Cidadã

Os ex-alunos da Escola Politécnica, Felipe Sampaio Ceccarelli e Fernando Gil relatam suas experiências com o Poli Cidadã, programa que incentiva projetos e atividades de cunho social. Contam também sobre suas pesquisas enquanto estudantes e como foi o mercado de trabalho no início de suas carreiras

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Felipe Sampaio Ceccarelli ingressou na Escola Politécnica em 1999. Optou, na Engenharia Elétrica, pela habilitação em Energia e Automação. Participou de algumas gestões do Grêmio Politécnico, foi representante discente nos conselhos da Escola, além de editor do jornal “O Politécnico”. Formou-se em 2005.

Foto: acervo pessoal do ex-aluno

Conheceu o Prof. Dr. Antonio Luis de Campos Mariani, coordenador do Poli Cidadã, por meio de reuniões de uma iniciativa do Grêmio chamada “Escritório Piloto”, que também tinha como uma das premissas o desenvolvimento de projetos com relevância e caráter social. Felipe conta que a intenção da criação do Poli Cidadã, se deu após um congresso que a Escola Politécnica organizou para debater as diretrizes de qual deveria ser o perfil do estudante politécnico para os dez anos seguintes.

“Entre as questões levantadas na conferência, havia a necessidade de que a Engenharia tivesse uma função social mais clara e mais definida, especialmente partindo de uma universidade pública.” – explica o ex-aluno.

Por conta desses projetos, e por conta da experiência em um estágio que Felipe fazia junto à USP para desenvolvimento de sites, ele se ofereceu para ser monitor do programa Poli Cidadã, e desenvolver um site com um banco de dados dos projetos dos alunos que participassem dele.

Além de sua participação como monitor, resolveu inscrever nele seu TCC sob orientação do Prof. Dr. Fernando Selles Ribeiro que, conforme relata também lhe ensinou valores de que “a engenharia não serve apenas para otimizar tempo e custo, mas tem que ter uma função, tem que ajudar as pessoas de alguma forma, se não perde seu sentido”.

A partir do trabalho do Prof. Fernando que à época foi um dos idealizadores do programa Federal de universalização do acesso à energia elétrica chamado “Luz para Todos”, Felipe pesquisou então como as distribuidoras de energia elétrica do Estado de São Paulo estavam trabalhando para alcançar a totalidade da população e a partir do estudo dos indicadores das distribuidoras de Energia, verificou se os processos de transmissão utilizados eram os com melhor custo-benefício em relação à verba federal disponibilizada. Ao longo de sua pesquisa, relata que foi uma boa experiência observar que as empresas demonstravam interesse em cumprir as metas estabelecidas para que o acesso à energia fosse universalizado. A conclusão de sua pesquisa foi de que, apesar das restrições técnicas das distribuidoras, era importante utilizar modelos de distribuição mais simples (como o modelo MRT – monofilar com retorno por terra), para conseguir atingir mais pessoas. Relata que não sabe se, após a conclusão de sua pesquisa, as empresas atingiram as metas de universalização, mas que ver os cálculos e fórmulas matemáticas terem uma aplicação real e social, e saber que as pessoas passariam a ter acesso a, por exemplo, iluminação ou uma geladeira para manter seus alimentos, foi uma ótima experiência. Elogia também o programa “Luz Para Todos”, que visava suprimir problemas como os das muitas famílias que vivem literalmente embaixo de linhas de transmissão, mas não têm acesso a essa energia.

Perguntado sobre as principais ferramentas que a Escola Politénica e o Poli Cidadã lhe ofereceram para atuar no mercado de trabalho, o ex-aluno relembra que o programa foi importante para reunir e incentivar projetos socialmente relevantes, e resume sua experiência em poucas palavras: “A principal ferramenta foi aprender a encontrar soluções, ‘aprender a aprender’. Sabendo como encontrar respostas, é possível resolver qualquer problema, mesmo os que ainda não existem”. Além de adquirir experiência em trabalhos em equipe, ele conta.

Trabalhou diretamente com Engenharia Elétrica somente por alguns meses numa consultoria de Energia, depois foi para a IBM, na sequência participou de uma startup que desenvolveu um sistema para corretores de imóveis. Agora está na empresa da família, no setor industrial, onde procura aplicar no seu dia-a-dia a responsabilidade social que praticou na Poli.

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Fernando Gil cursou Engenharia de Computação na Escola Politécnica, de 2003 a 2007. Seu TCC foi sobre segurança de informação. Mestrado na mesma área, de Engenharia Elétrica, entre 2008 e 2011. Em seu mestrado, com orientação do Prof. Dr. João Batista Camargo Júnior, pesquisou a área de segurança aeronáutica. Além de gostar de aviação, conta, buscou estudar o tema pela importância para a sociedade da questão da redução de acidentes aéreos. Ao concluir o mestrado, fundou uma empresa de tecnologia assistiva – para pessoas com alguma deficiência.

Foto: Canada Job Expo

O contato com o Poli Cidadã se deu quando o então estudante entrou como monitor no programa para cuidar do site, com a saída do colega Felipe Ceccarelli, no 3º ano de graduação em Eng. De Computação. No 5º ano Fernando começou a participar das atividades intensivas, que o Poli Cidadã organizava em parcerias de outras universidades como o MIT – Massachusetts Institute of Technology. Ele era o coordenador de equipe de alunos, ou seja, ajudava a coordenar as viagens. Ao longo de todo seu mestrado, já não mais como monitor, Fernando continuou ajudando o programa de maneira voluntária, o que totalizou por volta de seis anos de atuação.

Perguntado sobre sua área de atuação, se é com a Engenharia De Computação que se formou, Fernando opina que quando se chega ao mercado de trabalho, ele não costuma usar essas definições de habilitações em Engenharia, por conta do leque de tarefas e atribuições. Ao concluir o mestrado, o ex-aluno abriu uma empresa com foco social. Foi desenvolvido pela sua equipe um aparelho portátil que permitia que portadores de deficiência visual pudessem saber a cor dos objetos com os quais o aparelho era posto em contato. Foi desenvolvida também uma versão do software que indicava qual era a cor das cédulas de dinheiro. Trabalhou por quase quatro anos nesta empresa, com tecnologias para a área de acessibilidade, quando teve que finalizar as atividades da empresa por dificuldades de mantê-la, inclusive por ter focado em um público segmentado. A produção do hardware esbarrou também em problemas de pouco incentivo no país para a área, como muitos impostos (de importação das peças), leis e concorrência com grandes empresas. Por conta dos impostos, a empresa precisou subir o valor dos aparelhos de acessibilidade, o que começou a perder o sentido para o ex-aluno, que queria universalizar o acesso àquilo. Com a chegada dos smartphones, vários aplicativos começaram a oferecer serviços similares, inclusive gratuitos. Por fim, outra dificuldade citada por ele para empreendimento, foi o enquadramento nas regras do MEI (micro empreendedor individual), para a área da empresa.

Sobre ferramentas que a Escola Politécnica e o Poli Cidadã lhe ofereceram para lidar com o mercado de trabalho, levanta aspectos como lidar com organização de projetos no site, organização de eventos, trabalho em campo – de forma a poder entregar um trabalho bom para a sociedade e a comunidade para qual eles estavam atuando. O que ele carrega até hoje foi o aprendizado em relação aos métodos de solução de problemas. Frisa a importância deste assunto e métodos de engenharia que são lecionados logo no início da graduação. Mesmo no mercado de trabalho, montando sua startup, o denominador comum é a questão da solução de problemas. Além de poder ter tido a chance de participar do Programa, que oferecia algo além das técnicas de engenharia, em relação a questões de organização, planejamento, relacionamento com colegas e clientes etc.

Sobre o engajamento social do politécnico, Fernando acredita que vem aumentando muito. E em parte por conta do Poli Cidadã, que ajudou a estruturar e organizar os alunos da Escola Politécnica em relação ao assunto. Ele próprio não conhecia ainda muito o programa quando entrou nele para trabalhar, mas ao longo dos anos viu os alunos se interessando mais em se inscrever nas viagens, palestras, desenvolvimento de projetos, alguns logo ao ingressarem na graduação. Quando retornou à Poli para dar uma palestra sobre sua experiência no Poli Cidadã, alguns anos após ter concluído seu mestrado, surpreendeu-se por ter visto o número de alunos que estavam desenvolvendo projetos vinculados ao programa. Boa parte dos estudantes que ingressa na USP tem o interesse no âmbito social, acredita o ex-aluno, apenas não têm muito conhecimento nas maneiras que podem fazer isso, e por isso por vezes acabam não se organizando nesse sentido.

Mesmo que sem um vínculo direto com o engajamento social, ele opina, por fim, que só de participar de uma atividade extracurricular, qualquer seja ela, aquilo vai trazer alguma experiência nova e dinâmica de trabalho em equipe, valor muito importante para ele.

 

Texto: Rodrigo Rosa