A leishmaniose visceral em São Paulo e a pesquisa do ex-aluno José Eduardo Tolezano

 

Em reportagem recente publicada pela revista de divulgação científica “Pesquisa FAPESP” (jun. 2018), sob o título de “Um parasita chega às metrópoles”, há o alerta para o avanço da leishmaniose visceral em direção a centros urbanos, anteriormente não atingidos pela doença. O pesquisador e especialista no assunto, diretor do Centro de Parasitologia do Instituto Adolfo Lutz, ex-aluno da USP, o biólogo José Eduardo Tolezano, concedeu entrevista para a revista e também para a Rádio USP para tratar do tema. Tolezado possui mestrado e doutorado em Ciências, com pesquisas sobre parasitologia, ambos pela USP.

A proliferação da leishmaniose visceral se dá devido a, entre outros motivos, fatores climáticos – ou seja, clima mais quente. Os insetos transmissores se reproduzem em matéria orgânica em decomposição, por isso é importante o despejo e recolhimento adequado do lixo orgânico. No Brasil, por volta dos anos 1980, a doença era tida como rural e restrita à região nordeste, mais recentemente ela tem atingido pessoas de regiões urbanas, incluindo no Estado de São Paulo. A sua proliferação no Estado nas últimas duas décadas acompanha o traçado da Rodovia Marechal Rondon, ou seja, em toda a extensão central do território, a partir do interior com sentido para o litoral.

O protozoário que causa a doença é o Leishmania infantum chagasi, transmitido por mosquitos e que causa sintomas como febre, emagrecimento, inchaço do fígado e baço. A doença, além de difícil tratamento, diversas injeções ao longo de um mês, em sua forma mais grave pode ser fatal. Por isso, deve ser tratada no início, antes que o quadro se complique. Além dos humanos, os cães também podem ser vítimas da doença e da transmissão dos parasitas pelos mosquitos infectados. Conforme o pesquisador José Eduardo Tolezano explica em entrevista para a Rádio USP, por volta dos anos 1980 se iniciou o processo de migração do mosquito das áreas rurais para as capitais no nordeste. No Estado de São Paulo, registraram-se casos em Araçatuba, Bauru, Marilia, Presidente Prudente, São José do Rio Preto. Em regiões próximas da cidade de São Paulo, como Cotia e Embu, há registros da doença em cães, até o momento não há caso entre humanos.

Protozoário leishmania infantum. Fonte: Filipe Dantas-Torres – Dantas-Torres F. (2008). “Canine vector-borne diseases in Brazil”. Parasites & Vectors

Como a medida de política pública atualmente no Brasil consiste na identificação dos cães portadores da doença e sua eutanásia, existem pesquisas – uma delas coordenada por Tolezano – para implementação de métodos como a distribuição de uma coleira com inseticida. Além de evitar que mais cães contraiam a doença, ela ainda faz com que o cão infectado não seja atingido pelo mosquito (pelo efeito repelente), ou seja, ele não transmite o protozoário. A atual eutanásia, além de drástica, não tem apresentado efeitos significativos na contenção da proliferação da doença pelo território do Estado, explica o pesquisador, visto que ela tem se expandido. De maneira oposta, nos países em que o método da coleira foi aplicado, observaram-se efeitos satisfatórios na contenção da proliferação da leishmaniose visceral.

No Estado de São Paulo, a taxa de letalidade das pessoas que contraem a doença é considerada alta, por volta de 8,5%.

Texto: Rodrigo Rosa